Saiba como funciona a hipnose de verdade - seu guia completo.

Saiba como funciona a hipnose de verdade: seu guia completo

Saiba porque fazer hipnose. Compreenda o hipnotismo, conheça sua história e aprenda como hipnotizar através deste guia prático.

Hipnose é real – entenda o que é hipnose

Fundamentalmente, a hipnose é um estado de concentração voluntária e profunda. Estar concentrado é estar em transe. Quando vemos alguém muito concentrado em algo, como trabalhando o dia inteiro no computador, é usual falarmos brincando que a pessoa parece que está em transe ou hipnotizada.

Sempre que uma pessoa se encontra concentrada em algo, ela apresenta uma série de reações que são espontâneas, que ela não controla, e o hipnotista usa estas reações involuntárias para gerar a experiência de hipnose.

Vou dar três exemplos para você de situações corriqueiras do nosso dia a dia que definem o estado de transe hipnótico.

O primeiro exemplo ocorre quando alguém se vê obrigado a fazer algo que considera muito chato, como assistir uma palestra. Provavelmente esta pessoa vai ter a sensação que o tempo não passa, parece que o relógio não anda. Na verdade, a hora está passando do mesmo jeito, mas ele está tão concentrado para que o tempo passe rápido, que simplesmente entra em transe, e passa a perceber o tempo de forma distorcida. O nome disso é percepção distorcida do tempo. É a primeira característica de se estar hipnotizado.

O segundo exemplo é igualmente vivenciado por todos nós. Se você for ao cinema e assistir a um filme que está gostando muito, provavelmente você irá começar a sentir reações emocionais relacionadas ao que está acontecendo na tela – poderá ficar com medo, triste, alegre ou com raiva. Você sabe o tempo todo que é uma ficção, que conhece até o nome dos atores, mas ao mesmo começa a reagir também ao filme como se ele fosse um “fato real” acontecendo naquele instante.

O fato é que por você estar gostando do filme, você se concentra nele e mais uma vez o transe acontece – você começa a ser hipnotizado pelo filme. Se você vê um personagem voando no filme, em momento algum irá contestar que o ser humano não voa, e achará tudo natural. O nome disso é quebra do senso crítico. Esta é a segunda característica de se estar em transe, ou seja, hipnotizado.

Se uma pessoa estiver assistindo a um filme que não esteja gostando, ela não entrará em transe, não quebrará o senso crítico, e se aparecer um personagem voando, provavelmente irá dizer que isso é um absurdo, pois seres humanos não voam.

O terceiro e último exemplo que vou dar é consequência direta da quebra do senso crítico. Ao estar envolvida pela história do filme, uma pessoa provavelmente se perceberá consciente de que está no cinema e então poderá notar que deu umas “viajadas”, se sentinndo quase que participando da história. É um vai e volta constante, primeiro está no cinema, depois percebe que “viajou” na história, e por causa disso volta a se ver no cinema. Esta sensação de ir e voltar tende a acontecer repetitivamente. É o que chamamos de efeito de onda (como uma onda senoidal).

O efeito de onda é a uma característica do transe durante uma sessão de hipnose. Estar hipnotizado não é estar desmaiado, desacordado, ou virar zumbi – na realidade a pessoa está no vai e volta do efeito de onda. Ela está literalmente viajando no que o hipnotizador está falando.

Estas são as três características que definem o transe hipnótico: percepção distorcida do tempo, quebra do senso crítico e efeito de onda. São reações totalmente espontâneas e naturais, que acontecem rotineiramente com qualquer um de nós.

Indução hipnótica

O primeiro passo para se hipnotizar uma pessoa é chamado de indução hipnótica, ou seja, é o de se colocar a pessoa em transe. Existem várias técnicas de hipnose para se colocar uma pessoa em transe. Elas vão variar conforme o perfil da pessoa que será hipnotizada e do objetivo da sessão.

De uma maneira muito objetiva, primeiro iremos classificar os 3 tipos de “subjects” (pessoa a ser hipnotizada):

  • Pessoas com muita facilidade de entrar em transe profundo – denominados “sonambúlicos”.
  • Pessoas que entram em transe médio, ou seja, a grande maioria das pessoas.
  • Pessoas que apresentam uma dificuldade elevada de entrar em transe.

Baseado em alguns estudos e em minha vivência como hipnoterapeuta, diria que empiricamente 10% das pessoas tem muita facilidade para entrar em transe, 87% entram em transe médio e 3% provavelmente não conseguirão ter a experiência do transe hipnótico.

Objetivo de se fazer hipnose

Vamos agora classificar o objetivo de se fazer hipnose em dois tipos:

  • Hipnose de Palco.
  • Hipnose Clínica, ou, Hipnoterapia.

A hipnose de palco é fundamentalmente um show, um espetáculo – onde as coisas precisam ser teatrais e exageradas. Através de alguns exercícios práticos com a plateia (como a prática das “mãos coladas”), o hipnotista poderá identificar a fatia dos 10% de sonambúlicos da plateia. Este é o público alvo do hipnotista de palco.

Na hipnose clínica, o objetivo do hipnoterapeuta é fundamentalmente ajudar o paciente a lidar melhor com a realidade, e não o de gerar confusão mental ou fuga da realidade. As técnicas de indução buscam atingir as pessoas que entram em transe médio ou profundo, ou seja, 97% da população.

Técnicas de indução hipnótica

Agora iremos classificar as técnicas de indução hipnótica. Elas hoje são classificadas basicamente em três tipos:

  • Induções Instantâneas ou de Choque.
  • Induções Rápidas.
  • Indução Indireta.

A indução de choque tem como princípio básico provocar um susto (choque) com algo brusco, acompanhado de confusão mental, como puxar o braço ou deixar a mão da pessoa cair repentinamente. É fazer o sujeito entrar em transe em alguns segundos. Tudo o que você precisa fazer é disparar o que é conhecido como “efeito vagal”.

É um efeito similar a “Síndrome Vasovagal” – “Perda transitória da consciência – desmaio, provocado pela diminuição da pressão arterial e dos batimentos cardíacos por ação do nervo vago, localizado na região da nuca. É causado pela demora na chegada de sangue ao coração e ao cérebro. Os primeiros sinais são: fraqueza, transpiração, palidez, calor, náusea, tontura, confusão visual, dor de cabeça ou palpitações.” (Fonte: Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde)

Quando provocamos o efeito vagal através de um susto, a mente crítica fica offline por alguns segundos. É neste momento que o hipnotizador normalmente grita “Durma!” O cérebro se embaralha e a pessoa entra em transe para escapar da confusão e desorientação que está sentindo, como muito bem descreveu o hipnotista inglês Mike Mandel.

Já na indução rápida, o princípio fundamental é colocar a pessoa em transe através principalmente do uso da palavra, como se estivesse contando uma história, de uma maneira natural e tranquila. Quando a pessoa menos perceber, ela estará em transe. Esta forma de indução hipnótica dura normalmente alguns minutos – aproximadamente uns 3 minutos.

Como um dos principais sintomas tratados pela hipnose clínica são a ansiedade, estresse e insegurança – fica bastante coerente aplicar esta forma de indução como procedimento padrão. A principal técnica de indução rápida empregada atualmente é a indução de Dave Elman.

A terceira forma de indução é a indireta, conversacional. Ela é representada pela hipnose Ercksoniana, técnica que foi desenvolvida tendo como base o trabalho do psiquiatra americano Milton Erickson.

Erickson descobriu que o emprego da sugestão indireta pode estimular mudança comportamental terapêutica. Ele preferia conversar com clientes usando principalmente metáforas para influenciar seu comportamento, em vez de ordens diretas, o que é comum na hipnose clássica (induções rápidas e de choque).

Suas técnicas geralmente empregam confusão e desorientação. Ele busca empregar padrões vagos de linguagem, como palavras confusas e metáforas para distrair o processo consciente de pensamento do paciente e assim provocar a quebra do senso crítico.

O papel da sugestão na hipnose

O papel das sugestões na prática da hipnose.
O papel das sugestões na prática da hipnose.

A hipnose é, talvez, um dos métodos mais incompreendidos e controversos de tratamento psicológico. Os mitos e equívocos que cercam a hipnoterapia derivam principalmente das ideias das pessoas sobre o hipnotismo de palco. Como já foi dito, hipnotismo de palco é essencialmente uma performance teatral e tem tanto em comum com a hipnose clínica quanto os filmes de Hollywood têm com a vida real.

O fato é que a hipnose é um fenômeno psicológico genuíno, que tem usos válidos na prática clínica. Ela é um estado de concentração altamente focado, frequentemente associada ao relaxamento e à sugestionabilidade elevada. Enquanto estão sob hipnose (ou seja, em um estado de transe hipnótico), as pessoas se tornam muito mais abertas a sugestões úteis, do que normalmente são.

As sugestões positivas que as pessoas recebem enquanto hipnotizadas são chamadas de “sugestões pós-hipnóticas” porque têm o objetivo de surtir efeito depois que a pessoa sai do transe e não está mais sob hipnose.

Observe que as sugestões aplicadas sob hipnose são um componente importante do mecanismo pelo qual o procedimento funciona. Elas parecem entrar na mente – talvez pela “porta dos fundos” da consciência – onde muitas vezes germinam e se enraízam como importantes mudanças comportamentais ou psicológicas.

Ao contrário da crença popular, as pessoas sob hipnose têm total controle de si mesmas e nunca fariam nada que normalmente considerariam altamente questionável. Para ser hipnotizado com sucesso, uma pessoa deve querer se submeter ao processo voluntariamente e também possuir pelo menos um grau moderado de sugestibilidade.

Os usos clínicos mais frequentes da hipnose (hipnoterapia) incluem: ansiedade, insegurança e fobias.

Auto-hipnose

O estado de hipnose pode ser induzido por um profissional, como um hipnotista ou hipnoterapeuta, bem como pode também ser autoprovocado através da auto-hipnose.

Você pode testar facilmente os benefícios da auto-hipnose. Simplesmente sente-se ou deite-se confortavelmente em um ambiente tranquilo. Em seguida, feche os olhos e respire fundo algumas vezes, lentamente, inspirando e expirando. Isso coloca muitas pessoas em um leve transe e em um estado de relaxamento.

Nesse ponto, diga algumas coisas otimistas para si mesmo (por exemplo, “Eu posso facilmente pular a sobremesa”) e imagine alguns eventos agradáveis (por exemplo, visualize o sucesso). Mesmo uma sessão de cinco minutos pode ser muito útil para algumas pessoas.

A história da hipnose – dos tempos antigos à psicologia moderna

História mundial da hipnose.
História mundial da hipnose.

A hipnose é cercada por muitos mitos e equívocos. Infelizmente, apesar da pesquisa científica completa e do amplo uso clínico, algumas pessoas se assustam desnecessariamente com o estigma de achar que a hipnose é um procedimento místico ou esotérico.

Como hipnoterapeuta, costumo atender pacientes que inicialmente presumem que a hipnose é uma inovação recente do movimento da Nova Era, que se espalhou por comunidades metafísicas nas décadas de 1970 e 1980. Na verdade, a hipnose tem sido usada no Brasil desde o início de 1800. Ela foi desenvolvida por pioneiros da psicologia moderna como Sigmund Freud, Pierre Janet e Alfred Binet, entre outros.

Hipnose na antiguidade

As origens da hipnose são inseparáveis das da medicina e da psicologia moderna. Praticamente todas as culturas antigas, incluindo a suméria, persa, chinesa, indiana, egípcia, grega e romana, usavam a hipnose de alguma forma. No Egito e na Grécia, os doentes frequentemente iam a locais de cura conhecidos como templos do sono ou templos dos sonhos para serem curados por hipnose. Na Índia antiga, o livro sânscrito conhecido como The Law of Manu descreveu diferentes níveis de hipnose: “Sono-Despertar”, “Sonho-Sono” e “Sono-Êxtase”.

Algumas das primeiras evidências possíveis de hipnose para cura vêm do papiro Ebers egípcio, datado de 1550 a.C. Outro papiro egípcio de por volta do século III d.C. descreve a imposição de mãos no paciente, passes de mão e fixação ocular.

Magnetismo, fluidismo e mesmerismo

Por muitos séculos, especialmente durante a Idade Média, acreditava-se que reis e príncipes tinham o poder de curar por meio do “toque real”. Suas curas milagrosas foram atribuídas a poderes divinos. Antes que a hipnose fosse bem compreendida, os termos “magnetismo” e “mesmerismo” eram usados para descrever esses fenômenos de cura.

O médico suíço-alemão Paracelso (1493-1541) foi o primeiro a usar ímãs para a cura, em vez do toque divino ou de uma relíquia sagrada. Esse método de cura ainda existia no século 18, quando Maximillian Hell, um padre jesuíta e astrônomo real de Viena, ficou famoso por curar usando placas de aço magnetizadas no corpo.

Um dos discípulos seu foi médico austríaco Franz Mesmer (1734-1815) que ao se mudar para Paris, ganhou muita atenção no meio científico. Ele acreditava na influência dos corpos celestes para a cura das doenças e na presença de um fluido universal que conectava astros e seres vivos.

Esse fluido magnético era captado e emitido por ferro imantado e a pessoa imantada transferia energia para os demais. Como era o próprio homem que captava a energia, esse fenômeno passou a se chamar magnetismo humano. Um dos alunos de Mesmer, o Marquês de Puysegur, tornou-se um magnetista de sucesso e o primeiro a produzir uma forma profunda de hipnose semelhante ao sonambulismo.

Seguidores de Puysegur e da teoria do fluidismo Paracelsus-Mesmer se autodenominavam “Experimentalistas”. O trabalho de Mesmer e dos Experimentalistas foi um passo na direção certa para reconhecer que as curas que observaram não vieram de um ímã ou objeto, mas de alguma outra força.

O poder da sugestão – Faria, Liebeault, Bernheim e a escola Nancy

Em 1813, um padre indo-português conhecido como Abade Faria conduziu pesquisas sobre hipnose na Índia e voltou a Paris para estudar hipnose com Puységur. Faria propôs que não era o magnetismo ou o poder do hipnotizador o responsável pelo transe e a cura, mas um poder gerado de dentro da mente do sujeito.

A abordagem de Faria foi a base para o trabalho clínico e teórico da escola francesa de psicoterapia centrada na hipnose, conhecida como Escola Nancy, ou Escola da Sugestão. A escola de Nancy sustentava que a hipnose era um fenômeno normal induzido por sugestão, não o resultado de magnetismo.

A escola de Nancy foi fundada por Ambroise-Auguste Liebeault, um médico rural francês que é considerado o pai da hipnoterapia moderna. Liebeault acreditava que os fenômenos da hipnose eram psicológicos e desconsiderava as teorias do magnetismo. Ele estudou as semelhanças entre o sono e o transe e viu a hipnose como um estado que pode ser produzido por sugestão.

O livro de Liebeault, Sleep and its Analogous States, foi publicado em 1866. Seus escritos e as histórias de suas curas atraíram o proeminente médico Hippolyte Bernheim para visitar sua clínica. Bernheim (1840-1919) foi um neurologista renomado que inicialmente cético em relação a Liebeault, mas depois de observar seu trabalho, ele ficou tão surpreso que abandonou a “medicina convencional”, para se tornar um hipnoterapeuta.

Bernheim trouxe as ideias de Liebeault sobre a sugestão à atenção do mundo médico com seu livro Suggestive Therapeutics, do qual a hipnose emergiu como uma ciência. Liebeault e Bernheim são os inovadores da psicoterapia moderna. Suas opiniões prevaleceram, e até hoje a hipnose ainda é vista como um fenômeno de sugestão.

Pioneiros da psicologia

Alguns dos pioneiros da psicologia estudaram a hipnose nas escolas de Nancy e Paris. Pierre Janet (1859-1947), que desenvolveu teorias de processos inconscientes, dissociação e memória traumática, estudou hipnose com Bernheim em Nancy e com a escola rival de Charcot em Paris. Sigmund Freud também estudou hipnose com Charcot e mais tarde observou Bernheim e Liebeault. Freud começou a praticar a hipnose em 1887, e a hipnose foi crucial para sua invenção da psicanálise.

Anestesia hipnótica

Durante o período de intensa investigação psicológica da hipnose, vários médicos desenvolveram o uso da hipnose para anestesia. Em 1821, Récamier realizou uma grande operação usando hipnose para anestesia. Em 1834, o cirurgião britânico John Elliotson, que introduziu o estetoscópio na Inglaterra, relatou inúmeras operações cirúrgicas indolores usando hipnose.

James Esdaile, o cirurgião escocês, realizou mais de 2.000 operações menores e 345 grandes operações usando hipnose nas décadas de 1840 e 1850.

Hipnotismo moderno

O oftalmologista escocês James Braid é o pai do hipnotismo moderno. Foi Braid quem primeiro cunhou o termo neuro-hipnotismo (sono nervoso), que mais tarde se tornou “hipnotismo” e “hipnose” (1841). Braid havia visitado uma demonstração de um magnetista francês, La Fontaine, em 1841. Ele zombou das idéias dos mesmeristas e foi o primeiro a sugerir que a hipnose era psicológica.

Braid é talvez o primeiro praticante da medicina psicossomática. Em 1847 ele tentou explicar a hipnose por “monoideísmo” (foco em uma ideia), mas o termo “hipnose” havia avançado no trabalho da Escola de Nancy, e ainda é o termo usado hoje.

Hipnose nos Estados Unidos

Assim como a hipnose foi investigada intensamente por psicólogos, a hipnose foi usada na medicina como anestesia, com milhares de operações cirúrgicas realizadas por meio da hipnose.

A hipnose era comum em meados de 1800, quando os anestésicos químicos foram descobertos. Os “shows em barracas” de esquina eram entretenimentos populares em que a hipnose era demonstrada, junto com novas drogas inalatórias e outras maravilhas da química.

Foi em um desses shows que Horace Wells teve a ideia de usar o óxido nitroso para extrações dentárias. À medida que os anestésicos químicos se tornaram populares, o uso generalizado da hipnose para anestesia diminuiu.

Em 1800, na América, havia também um profundo interesse pelos fenômenos metafísicos, psíquicos e espirituais, o que gerou diferentes tipos de cura espiritual e movimentos de cura mental. Como a hipnose já era amplamente conhecida, era natural que alguns curandeiros espirituais induzissem o transe como parte de seu método. Seus movimentos geralmente apresentavam suas curas como provenientes de uma fonte espiritual, mas as curas provavelmente resultavam mais frequentemente da combinação do transe com as sugestões do curador e a crença do sujeito.

Felizmente, apesar da apropriação da hipnose para apresentações em tendas e cura espiritual, a investigação científica e acadêmica da hipnose continuou. Na primeira metade do século 20, Joseph Jastrow ensinou hipnose na Universidade de Wisconsin.

Seu aluno, Clark Hull, tornou-se um psicólogo experimental na Universidade de Yale que avançou significativamente na pesquisa da hipnose. Em 1933, Hull publicou “Hypnosis and Suggestibility”, a primeira grande revisão da hipnose, aplicando os padrões da psicologia experimental moderna.

Ernest Hilgard e Andre Weitzenhoffer conduziram pesquisas significativas em Stanford. A hipnose ganhou ainda mais atenção científica quando foi usada nas I e II Guerras Mundiais, e no Conflito Coreano para o tratamento rápido de ferimentos e traumas. Desde então, foi aprovado pelas principais organizações médicas e psicológicas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá e continua sendo objeto de rigorosos estudos científicos.

O século XX também teve vários praticantes de hipnose influentes. Dave Elman, um hipnotizador que popularizou um método de indução rápida de hipnose, ensinou suas técnicas a muitos médicos. O psiquiatra e psicólogo americano Milton Erickson foi uma das maiores influências no campo da hipnose. Suas teorias de que a mente inconsciente está sempre ouvindo levaram a técnicas indiretas de hipnose, incluindo sugestão subliminar e programação neurolinguística (PNL).

Do ponto de vista histórico, é interessante notar que, embora a hipnose às vezes estivesse ligada a vários modismos e movimentos passageiros, a prática clínica e o estudo científico da hipnose sobreviveram. Só isso é um grande testamento do poder duradouro da hipnose para ajudar as pessoas.

Felizmente, os campos médico e acadêmico continuaram a usar e validar a hipnose como um procedimento terapêutico, e a pesquisa da hipnose parece mais ativa do que nunca. Com novas maneiras de compreender a mente, o cérebro, a consciência e a memória, estou animado para ver que novas compreensões da hipnose o século XXI poderá trazer.

Hipnose no Brasil

Na data de 1823, o primeiro estudo científico da hipnose, recém-chegada ao Brasil, foi publicado por João Lopes Cardoso Machado, com citações sobre o método em seu “Dicionário Médico-Prático”.

Em 1832 Leopoldo Gamard publicou “Monografia sobre Magnetismo Animal”, seguido por José Mauricio Nunes Garcia em 1857, que lançou luz sobre “Estudos sobre a Fotografia Fisiológica”.

A prática do magnetismo despertada por esses pioneiros gerou intensa mobilização no meio médico brasileiro e resultou na constituição da Sociedade de Propaganda do Magnetismo e Jury Magnético no Rio de Janeiro, em 28 de maio de 1861. É interessante observar que a sua existência tenha nascido de uma recomendação de D. Pedro II.

Em 1887, com a apresentação de um estudo com Érico Coelho na Academia Médica Imperial sobre o tratamento do beribéri com sugestões hipnóticas, iniciou-se em nosso país a fase verdadeiramente científica da hipnose. Posteriormente, em 1888, Cunha Cruz apresentou a obra intitulada “Hypnotismo e Sugestão com Aplicação à Tocologia”, seguida da obra “Physiologia Pathológica dos Phenomenos Hypnóticos” de Francisco Moura.

Todos os estudos foram derivados da evolução da hipnose no antigo continente e continham uma forte influência francesa.

Em 1889, o II Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia foi realizado no Rio de Janeiro. Onde se foram apresentados trabalhos de Alfredo Barcello, Aureliano Portugal, Francisco Fajardo Jr. e Érico Coelho sobre a hipnose.

O médico Francisco de Paula Fajardo Jr colou grau em 1888, sendo aprovado com distinção ao defender sua tese de doutoramento “O Hypnotismo”. Considerando o sucesso da tese, ele a expandiu e lançou o “Tratado de Hypnotismo” em 1896. Este material refletia os ecos do famoso debate ocorrido entre as escolas de Paris e Nancy, sendo a primeira tese sobre hipnotismo lançada no cenário brasileiro.

Devemos referir-nos também ao nome de Medeiros e Albuquerque que, apesar de leigo, publicou um livro muito valioso em 1919, pouco depois da Primeira Guerra Mundial. “O hipnotismo e suas aplicações”.

Em 1938, escapando da Segunda Guerra Mundial, chega ao Brasil o psicólogo austríaco Karl Weissmann. Ele foi o criador do termo “Freud explica” – tinha uma coluna com este nome na antiga revista O Cruzeiro. Ele era defensor do hipnotismo científico no Brasil. Foi professor de hipnose para uma geração de médicos nos anos 50. Fez apresentações na televisão e deu entrevistas em rádios e jornais. Publicou um total de oito livros, com destaque para “Que é psicanálise? Freud explica” e “O Hipnotismo – Psicologia, Técnica e Aplicação”, que teve quatro edições.

Em 1957, foi criada a Sociedade Brasileira de Hipnose Médica, o que inspirou muitas sociedades semelhantes espalhadas por vários estados do Brasil.

Quando o presidente Jânio Quadros proibiu as manifestações públicas de hipnose pelo Decreto 51.009, de 22/07/1961, ele assinou a única lei no Brasil sobre essa técnica. Trinta anos depois, o então presidente Fernando Collor de Mello cancelou totalmente essa regra pelo Decreto 11 de 18/1/1991.

Atualmente, a hipnoterapia ou hipnose clínica não é uma profissão regulamentada no Brasil. A hipnose pode ser aplicada tanto na saúde, como em muitas outras áreas como educação, esportes e recursos humanos, entre outras.

Alguns Conselhos Federais possuem definições sobre o uso da hipnose em seus códigos de conduta e regras de procedimento. O Conselho Federal de Odontologia foi o primeiro órgão representativo de uma categoria profissional que reconheceu a hipnose como instrumento clínico, seguido pelo Conselho Federal de Medicina, o Conselho Federal de Psicologia e o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapias Ocupacionais.

Existem atualmente muitas experiências bem-sucedidas do uso da hipnose em hospitais no Brasil. O Hospital das Clínicas de São Paulo utiliza a hipnose desde 1995. O Hospital São Camilo, também localizado em São Paulo, trabalha com hipnose clínica desde 2008.

Seguindo orientação da Organização Mundial da Saúde sobre medicina alternativa e complementar, em 12 de março de 2018 o Ministério da Saúde incluiu a hipnoterapia ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 1º de fevereiro de 2018, a hipnose foi reconhecida no Brasil quando Geraldo Alckmin, o então governador de São Paulo no Brasil, aprovou a lei 16.670 referente à criação do “Dia Estadual do Hipnólogo” a ser comemorado em 25 de setembro.

Saiba mais sobre a história da hipnose no Brasil.

Saiba mais sobre a história da hipnose no mundo.

Guia prático de hipnose – aprenda como hipnotizar

Indução de Dave Elman.
Indução de Dave Elman.

A indução hipnótica de Dave Elman

Como hipnotizador, Dave Elman ensinou médicos e dentistas em como empregar a hipnose como ferramenta de terapia. Seu livro, Hypnotherapy, é amplamente considerado um clássico. Elman desenvolveu sua indução com o objetivo de levar as pessoas ao transe no menor tempo possível. Por esse motivo, é considerada ideal para profissionais da área de saúde, como médicos, psicólogos, dentistas e hipnoterapeutas.

Os 5 passos da indução de Dave Elman

1. Fechamento dos olhos

Respire fundo. Ao soltar, feche os olhos e relaxe. Agora, relaxe as pálpebras e os músculos ao redor dos olhos, total e completamente. Relaxe-os tão completamente que, enquanto você mantiver esse relaxamento, seus olhos permanecerão fechados. Quando você perceber que seus olhos estão totalmente relaxados, faça uma tentativa e certifique-se de que eles permanecem fechados. (Pausa)

2. Relaxamento corporal

Agora deixe o relaxamento dos seus olhos fluir do topo da sua cabeça até a ponta dos pés, em uma bela onda fluida de relaxamento. (Pausa) Isso mesmo.

3. Fracionamento

Em um momento, vou pedir a você para abrir os olhos e, em seguida, fechá-los novamente. Ao fechá-los, vá 10 vezes mais fundo no relaxamento. Abra seus olhos, agora feche-os. (Pausa) Vá 10 vezes mais fundo. (Pausa). Isso mesmo.

Em um momento, vou pedir a você para abrir os olhos e fechá-los novamente. Desta vez, dobre seu relaxamento. Abra seus olhos, agora feche-os. Dobre esse relaxamento. (Pausa)

Bom. Em um momento, vou pedir a você para abrir os olhos e fechá-los novamente. Desta vez, vá muito mais fundo. Abra seus olhos, agora feche-os. Muito mais profundo. Todo o caminho para baixo. Bom. (Pausa)

4. Aprofundamento da queda do braço

Em um momento, vou pegar seu braço esquerdo pelo polegar. Se você seguiu as instruções, seu braço ficará solto e pesado como um pano de prato molhado. Não me ajude, deixe-me fazer todo o esforço. Vou erguer seu braço alguns centímetros e, em seguida, soltá-lo. Quando o fizer, apenas deixe-o cair e vá muito mais fundo (solte o braço). Muito mais profundo.

5. Amnésia sugerida

Bom. Agora que temos um bom relaxamento físico, vamos adicionar relaxamento mental a ele. Em um momento, vou pedir a você para começar a fazer uma contagem regressiva de 100 até 0, em voz alta ao contrário. Permita que cada número que você diga ajude sua mente a ficar mais relaxada, calma e serena. Você descobrirá que, com apenas alguns números, sua mente pode ficar tão relaxada, que o resto dos números simplesmente desaparecem, ficam turvos e distantes, e desaparecem completamente.

Quando isso acontecer, observe como é bom. Você fará a contagem ao contrário – 100 … 99 … (diga devagar, no tempo de cada uma de suas exalações), permitindo que cada número relaxe sua mente para que fique relaxada e serena como a superfície de um lago parado. Com apenas alguns números, o resto deles simplesmente desaparecerá.

Comece a fazer a contagem regressiva agora:

“100”
Bom.
“99”
Relaxando cada vez mais.
“98”
Agora apenas deixe que os números desapareçam completamente.
Todos eles se foram?
Bom.

O paciente agora estará pronto para as sugestões.

Durante a indução, você poderá ter que repetir alguma das várias etapas do processo, até perceber que a pessoa esteja apta para receber suas sugestões. Lembre-se, ser um bom hipnotista depende de muita prática e persistência – é uma técnica personalizada, aperfeiçoada através da tentativa e erro.

Quando estiver pronto para sair do transe, basta dizer “Vou contar até cinco, quando chegar a cinco ou antes, seus olhos se abrirão e você se sentirá relaxado e revigorado”. Conte até cinco lentamente, com sua voz ficando um pouco menos suave e um pouco mais “acordada” a cada número. Quando chegar ao quatro, se os olhos deles não estiverem abertos, diga “No próximo número, seus olhos se abrirão e você se sentirá relaxado e revigorado. Cinco, olhos abertos, sentindo-se relaxado e revigorado.”